10 dezembro, 2014

ouvir Guido

Carlo Scarpa's Tomba Brion 17134/17144, Looking Southwest, 2011
© Guido Guidi

E, de repente, duas exposições de Guido Guidi em Portugal (e de seguida). Depois da Galeria Pedro Alfacinha, Lisboa, o espaço Garagem Sul, no Centro Cultural de Belém, acolhe a exposição Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion, naquela que é uma das facetas mais conhecidas da obra do mestre italiano - a fotografia de arquitectura.
Depois da inauguração da mostra, o Atelier de Lisboa organiza uma conversa com Guido Guidi a propósito das fotografias de Marcello Galvani (1975), aluno de Guidi na Academia de Belas Artes de Ravenna e profundamente inspirado na sua maneira de estar na fotografia contemporânea.
Esta sessão, organizada pelo Atelier de Lisboa e por Paulo Catrica, faz parte dos Cursos de Projecto do Atelier. É aberta ao público e de entrada livre, no limite dos lugares disponíveis. O encontro está marcado para as 19h00, na Av. de Berna, 31 – 2.º Dto., Lisboa.

Este é o texto dos curadores sobre a exposição na Garagem Sul:

O tempo eterno da modernidade é o tempo das imagens. A imagem fotográfica é o centro imóvel do vórtice do novo, o mesmo novo que dessacralizou a vida eterna e engendrou a materialização física de lugares do nada para sempre, os cemitérios modernos. Projectar um cemitério encerra o absurdo funcionalista de projectar para a eternidade, para uma singular função mais perene que a sua materialização. São lugares outros da modernidade e da sua aparente superação, lugares que se descobrem nas imagens. Guido Guidi fotografou obsessivamente um destes campos de imagens eternas, o que Carlo Scarpa desenhou para a família Brion. 
As várias campanhas fotográficas que Guido Guidi tem conduzido desde 1996 no cemitério Brion desvendam a temporalidade cíclica deste campo sagrado, levando a pensar numa inversão de vectores, hipotizando que o projecto aprendeu das imagens. De facto, se a função dura mais que a arquitectura, são as imagens e não os usos que mudam a arquitectura. As imagens de Guidi revelam as modulações e os ciclos desta mutação: a assonância, a variação, a fuga, a lateralização, ou o salto entre narrativas. Nesta exposição, as imagens de Guidi são o modo de expor, de colocar em diálogo a arquitectura de Scarpa.

Joaquim Moreno e Paula Pinto, curadoria de Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion



© Marcello Galvani

09 dezembro, 2014

os melhores I

Sequester (Fw Books), Awoiska van der Molen

Os melhores fotolivros de 2014 para o crítico de fotografia Sean O'Hagan do The Guardian estão aqui

04 dezembro, 2014

Cecil Beaton

Cecil Beaton, Marilyn Monroe, Portraits & Profiles


Retratos com câmara e caneta
(Lucinda Canelas, Público, 03.12.2014)

A avaliar pela quantidade (e qualidade) das exposições e livros que lhe têm sido dedicados nos últimos anos, talvez não seja exagero dizer que o britânico Cecil Beaton (1904-1980) se tornou tão famoso como as estrelas que fotografou durante mais de 50 anos. Estrelas do cinema e da música, das artes plásticas e da literatura, como Marilyn Monroe, Greta Garbo, Grace Kelly, Mick Jagger, Colette, Francis Bacon, Aldous Huxley ou Lucian Freud passaram pela sua câmara e também pelas páginas do seu diário tantas vezes cínico e corrosivo, que manteve entre 1922 e 1980.

Cecil Beaton: Portraits & Profiles (edição Frances Lincoln, 2014), compilação organizada pelo seu biógrafo, Hugo Vickers, já tem uns meses nas prateleiras das livrarias mas merece bem um olhar mais atento e pode ser uma boa sugestão para as festas que se aproximam. Porquê? Porque é um volume que combina a fotografia sofisticada de Beaton, tantas vezes elogiosa para o modelo, com excertos dos seus textos cuidados e francos – é o mínimo que se pode dizer – que chegam a raiar o insulto quando se trata de falar, por exemplo, da designer de moda Coco Chanel ou da actriz Elizabeth Taylor. Comum aos dois registos - o da câmara e o da caneta, ambos reflexo de um autor talentoso – é o olhar incisivo do homem a quem se devem retratos icónicos do século XX e a quem, graças aos comentários verrinosos e cheio de duplos sentidos, o poeta francês Jean Cocteau chamava “Malice in Wonderland”.

 “Ele era um homem de grande inteligência visual”, escreve Hugo Vickers na introdução de Portraits & Profiles, um texto curto em que fala um pouco do seu método de trabalho quando fotografava em estúdio – foi também repórter de guerra (norte de África, Médio Oriente e Índia), escritor, figurinista, cenógrafo e decorador de interiores – e do seu hábito de registar em palavras os seus modelos, fosse em frases soltas, fosse em forma de pequenas biografias. “Cecil identificava as falhas de cada um e trabalhava para as eliminar”, explica, acrescentado que o britânico fotografava quem queria e que foram poucos os que lhe disseram “não” (a escritora Virginia Woolf está entre eles).

Com Audrey Hepburn, por exemplo, Beaton escolheu uma pose para lhe esconder o pescoço demasiado fino, o queixo pontiagudo e o nariz longo, escreve o biógrafo e organizador do volume. Com Marilyn Monroe decidiu persegui-la pelo seu quarto de hotel durante 45 minutos, disparando sem parar. Quando se sentou para escrever sobre ela, mal deu por terminada a sessão, fez notar a sua ingenuidade, falou de uma criança a brincar no mundo dos adultos e vaticinou-lhe um fim triste: “A sua voz tem a sensualidade da seda ou do veludo”, diz, e a “verdade desconcertante é que Miss Monroe é uma sereia de faz-de-conta, tão pouco sofisticada como uma criada do Reno, tão inocente como um sonâmbulo”.

Já com Liz Taylor, Cecil Beaton foi tudo menos complacente - “Ela é tudo o que eu não gosto”, escreveu. “Sempre abominei os Burton [Liz e o marido, o actor Richard Burton] pela sua vulgaridade”, admite, indo ainda mais longe: “Os seus seios, enormes e caídos, eram como os de uma camponesa a amamentar o filho no Peru”, “comparada com ela, qualquer pessoa é delicada”.

Mas nem só as actrizes passam pelos seus settings elaborados – para Beaton, pensar a fotografia é, antes de mais, pensar o cenário em que ela acontece - nem pelas páginas dos seus cadernos. O artista plástico Salvador Dalí tinha mau hálito, o pintor Lucian Freud revelou-se um “ser humano profundamente vibrante” e o amigo Francis Bacon era de um “charme tremendo”; Aldous Huxley, como acontece com muitos dos “altamente inteligentes” era “a simplicidade em pessoa”; e Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, tinha um talento “natural” para posar, com “uma figura, mãos e braços extremamente femininos” e, apesar de “sexy”, com um género impossível de definir: “Ele podia ser um eunuco”, concluiu.

As fotografias de Cecil Beaton e as suas pequenas biografias são crónicas de época escritas por um snob que não se importava nada de o ser. E ainda bem.

03 dezembro, 2014

Deutsche Börse 2015 - Os nomeados

Nikolai Bakharev, s/t #70, da série Relation, 1991-1993
© MAMM, Moscow/Nikolai Bakharev


Já são conhecidos os quatro finalistas do Deutsche Börse Photography Prize 2015: Zanele Muholi (África do Sul); Mikhael Subotzky (África do Sul); Viviane Sassen (Holanda); e Nikolay Bakharev (Rússia).
Resultado da importância dos fotolivros na cena fotográfica contemporânea, há dois artistas nomeados pela publicação de novas obras: Muholi, pela publicação de Faces and Phrases (retratos da comunidade LBGT sul-africana acompanhados por relatos de violência e discriminação), e Subotzky, pelo monumental Ponte City, trabalho hercúleo levado a cabo com o editor da revista Colors, Patrick Waterhouse, que se centra no quotidiano daquela que foi uma torre de habitação de elite em Joanesburgo, o edifício residencial mais alto do país, e que hoje está votada ao quase abandono. São mais dois trabalhos que lidam com o legado post-apartheid, um universo que tem ocupado muitos fotógrafos sul-africanos, como Pieter Hugo.
Viviane Sassen, uma das mais talentosas fotógrafas de moda da actualidade e criadora de ambiciosos fotolivros, foi nomeada pela exposição Umbra, que esteve no Nederlands Fotomuseum.
O antigo mecânico Nikolai Bakharev foi nomeado por uma exposição na Bienal de Veneza que mostra banhistas em praias russas. As imagens, com um pendor ambíguo entre o erotismo e os limites dos costumes, foram captadas nos anos 80, quando os nus eram proibidos e o quotidiano um tema pouco documentado.
Os trabalhos dos finalistas será mostrado na Photographers’ Gallery de 17 de Abril a 7 de Junho de 2015. O vencedor, que ganhará um prémio de 38 mil euros, será anunciado a 28 de Maio.
O júri é composto por Chris Boot (Aperture Foundation); Rineke Dijkstra (artista); Peter Gorschlüter (MMK Museum für Moderne Kunst); e Anne Marie Beckmann (curadora, Art Collection Deutsche Börse).
O Deutsche Börse Photography Prize (antes designado Citigroup Photography Prize) foi lançado em 1996 pela Photographers’ Gallery, de Londres. Desde 2005 que conta com a parceria do Deutsche Börse Group. O seu principal objectivo é reconhecer e recompensar o trabalho de um fotógrafo vivo, de qualquer nacionalidade, que tenha contribuído de forma significativa para a fotografia na Europa nos doze meses do ao anterior. É um dos mais prestigiados galardões do mundo e já atribuiu prémios a nomes reconhecidos da fotografia contemporânea como Paul Graham, Jüergen Teller, Rineke Dijkstra, Richard Billingham ou John Stezaker.





28 novembro, 2014

vamos à feira



Não é a black friday (ainda bem), não haverá multidões sôfregas à porta, nem atropelos. Mas haverá muitos livros de fotografia à venda. Começa hoje a 5.ª Feira do Livro de Fotografia na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. Criada em 2010 por iniciativa do colectivo de fotógrafos "Os Suspeitos" e do espaço de exposições da Fábrica Braço de Prata, esta feira tem sabido cativar gente interessanda por livros de fotografia: novas publicações, livros em segunda mão, dummys e publicações de autor. A organização anuncia acertadamente que até ao dia 30, a Fábrica Braço de Prata "converte-se na maior livraria em Portugal especializada em fotografia, apresentando novidades editoriais, projectos independentes, edições raras ou fora de catálogo, maquetes e edições de autor".
Para que não se esgote num faceta puramente comercial, durante todo o fim-de-semana, a feira de Braço de Prata organiza várias mesas redondas em torno das mais diversas questões do universo da fotografia.
Algumas mesas redondas:

Sexta, 28, 19h
>Como se ensina a fotografia hoje? Qual são as especificidades e a missão das escolas?
António Lopes, Diretor Pedagógico da APAF, fotógrafo, Professor e Crítico de Arte
Rogério Taveira, Coordenador do Mestrado em Arte Multimédia, Vice-Presidente da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
José Fabião, ETIC, Gestor Pedagógico da Área, FOTOGRAFIA // HND In Art and Design
Bruno Santos, Professor de Projeto e Tecnologias (Fotografia), Escola Artística António Arroio
Bruno Pelletier Sequeira, Coordenador do Atelier de Lisboa

Sábado, 29, 16h
>Dinâmica e sinergia no campo da fotografia e da edição e novos serviços de produção editorial para os autores
Rui Poças, Pickpocket Gallery
Téo Pitella, Galeria/Livraria 1359
Luís Henriques, Homem do Saco

Domingo, 30, 16h
>Sobre o Anuário da Tipo.pt, o Portuguese Small Press Yearbook 2014
Conversa a volta do livro “Imprisoned Spaces/Espaços Aprisionados” do fotógrafo Pedro Lobo
Pedro Lobo (autor)
Alexandre Pomar, jornalista e crítico de arte co-fundador da Pequena Galeria
Filipa Valladares, curadora e produtora independente, co-fundadora da livraria Stet

A entrada na feira é livre.
A programação completa pode ser consultada aqui

Fábrica de Braço Prata
Rua da Fábrica de Material de Guerra, Nº 1
1950-128 Lisboa
Horário:
Sexta-feira 28: 18h - 23h
Sábado 29: 15h - 23h
Domingo 30: 15h - 20h

02 novembro, 2014

Alfred Wertheimer 1929 - 2014

The Kiss
Alfred Wertheimer

Ele não fazia ideia quem era Elvis, mas apanhou-o melhor do que ninguém


"Elvis who?". Quando a assessora de imprensa da editora RCA Anne Fulchino pediu a Alfred Wertheimer para acompanhar uma nova estrela da editora, em 1956, o fotógrafo não fazia ideia quem era Elvis Presley. Wertheimer andava nessa altura a tentar a sua sorte como fotógrafo de moda, mas não era isso que queria fazer. O fotojornalismo era o seu principal objectivo. Através de um fotógrafo da revista Life foi apresentado a Fulchino. A assessora gostou do seu trabalho e propôs-lhe que acompanhasse Elvis durante alguns dias. Décadas depois, por causa dessas imagens, Wertheimer tornou-se mundialmente famoso. O fotógrafo que conseguiu captar algumas das imagens mais icónicas do rei, morreu na semana passada, aos 85 anos, em Nova Iorque.

“Não houve nenhum fotógrafo que Elvis tivesse deixado chegar tão perto da sua vida e da sua intimidade como o fez Alfred”, disse Priscilla Presley, mulher de Elvis.

As fotografias captadas durante as sessões de 1956 seriam usadas nas contra-capas de discos e algumas seriam distribuídas pelos jornais. A ideia era passar facilmente a imagem de Elvis em acção nos concertos, nos bastidores e em alguns aspectos da sua vida privada. O dinheiro que Wertheimer receberia em troca deste trabalho daria para pagar os rolos a preto e branco, as provas de contacto e as deslocações e, de vez em quando, uma ou outra refeição. Quando quis retratar Elvis a cores, a RCA achou que não era boa ideia e o fotógrafo teve de pagar os rolos do seu bolso. Em contrapartida, ficou com os direitos sobre os negativos e com o dinheiro da venda destas imagens para outras publicações. Um negócio que veio a revelar-se bem mais lucrativo para o homem da máquina fotográfica do que as duas partes alguma vez podiam imaginar.
Com acesso privilegiado a locais onde o comum dos fotógrafos nunca poderia estar, Wertheimer acompanhou Elvis durante apenas dez dias, em diferentes ocasiões. Durante essas sessões captou cerca de 450 fotografias. Essas imagens são talvez as que melhor transmitem todo o caldeirão de sentimentos e situações que envolveram o cantor no ano em que foi definitivamente catapultado para a fama. O ano em que gravou Hound Dog e Don’t Be Cruel, o 45 rotações mais vendido da década. O ano em que Elvis se tornou um ídolo para os adolescentes americanos. O ano em que deu os primeiros passos rumo ao estatuto de celebridade. Um tempo em que se entregava sem receios à objectiva. Uma proximidade que ficou demonstrada enquanto Elvis gravava Hound Dog e Don’t Be Cruel, enquanto lia correspondência de admiradoras, enquanto comia sozinho ou olhava pela janela do comboio. Uma proximidade que chegou à intimidade com The Kiss, a imagem mais conhecida de Wertheimer que mostra Elvis de língua colada a uma rapariga nos bastidores.

Pouco depois de uma grande exposição dedicada ao trabalho de Wertheimer sobre Elvis no Smithsonian Institution’s National Portrait Gallery, em 2010, a rapariga do beijo haveria de se revelar através de uma reportagem publicada na revista Vanity Fair. Na altura, Junho de 1956, Alfred Wertheimer não perguntou quem era aquela mulher que enfeitiçou Elvis e garante que ninguém do círculo restrito do rei sabia. Nem ele. A incógnita durou muito tempo, mas não foi por causa das feições da rapariga se esconderem na perspectiva. Entre as fotografias onde aparece a mulher que encantou Elvis na noite em que estava prestes a actuar para milhares de pessoas no Mosque Theatre, em Richmond, há muitas em que esta enfrenta a câmara sem rodeios. Apenas três meses depois do beijo na ponta da língua, The Kiss foi parar às páginas de uma publicação especial chamada The Amazing Elvis Presley (tiragem de 100 mil exemplares a 35 cêntimos cada). E daqui foi estampada na Life e depois em centenas de outros títulos mais.

A família da mulher escultural, reformada de um negócio de imobiliário, sabia da namoriscadela com Elvis. E sabia das fotografias. Mas sempre respeitaram o seu desejo de não dar a cara pela fotografia que está em quase todo lado onde o nome de Elvis aparece. The Kiss foi escolhida para os materiais de promoção da exposição Elvis at 21: New York to Memphis, no Smithsonian, que reuniu dezenas de fotografias da lendária série de Wertheimer. O certo é que o poder da imagem parece ter vencido o do silêncio. E, mais de cinco décadas depois, a mulher do beijo decidiu mostrar o rosto e dar o nome. Chama-se Barbara Gray.

“Elvis permitiu-me proximidade. Sem ela não teria conseguido as imagens de intimidade que consegui”, afirmou Wertheimer numa entrevista, em 2010. “Ele fazia dele próprio. Era o melhor realizador da sua própria vida e eu não  teria feito melhor se o tivesse tentado”, acrescentou.

Segundo o New York Times, esta série de Alfred Wertheimer esteve esquecida durante muito tempo, apesar de um ligeiro ressurgimento logo depois da morte de Elvis, em 1977. A segunda vida destas imagens aconteceu nos anos 1990 por iniciativa de Chris Murray, dono da Govinda Gallery, sediada em Washington e especializada em arte relacionada com o mundo do rock. Durante as duas décadas, Wertheimer organizou inúmeras exposições em todo o mundo e  publicou vários livros, entre os quais um com a chancela da Taschen.

Alfred Wertheimer nasceu em 16 de Novembro de 1929, em Coburg, na Alemanha. Chegou a Nova Iorque com os pais em 1936, em fuga da perseguição nazi aos judeus. Licenciou-se em Design em Publicidade, em 1947, e começou a tirar fotografias para o jornal Cooper Union com uma câmara oferecida pelo irmão mais velho, Henry. Regressou à Alemanha em 1952 integrado no Exército americano como fotógrafo. De volta aos EUA, trabalhou com o fotógrafo de moda Tom Palumbo enquanto fazia biscates para outros clientes como a RCA, através da qual fotografou artistas como Perry Como, Arthur Rubinstein, Lena Horne e Nelson Eddy. De acordo com o obituário publicado pelo New York Times, nos anos 60 Wertheimer dedicou-se ao cinema (foi um dos autores do documentário Woodstock), onde experimentou a montagem. Nos últimos anos dedicou-se em exclusivo à promoção do seu trabalho fotográfico, aparecendo em exposições e conferências sobre Elvis Presley.




Alfred Wertheimer


09 outubro, 2014

BESPhoto - balanço




BESPhoto 2014
© David Rato


O que se ganhou (e o que se perdeu) 
(crónica, ípsilon, 06.06.2014, sendo que, entretanto, já mudaram algumas coisas)

Isto desde que o Jorge Jesus e a Paula Rego deram as mãos e trocaram piropos dentro de uma chaminé gigante em Cascais, futebol e arte são um só. Por isso, vamos lá.

Aqui há dias, a conquista da décima orelhuda pelo Real Madrid deu-nos um pouco de tudo. Foi uma final da Liga dos Campeões memorável a vários níveis: houve espectáculo, intensidade, drama, surpresa, reviravolta, imprevisibilidade, nervos e espanto. Houve vários momentos fotográficos (incluindo, claro, o de Ronaldo a exibir sem pudor a massa de que é feito) e um ou outro cinematográfico (como o de Sérgio Ramos a marcar milimetricamente o golo do empate a segundos do fim). Houve um duelo titânico de dois rivais muito próximos, que perceberam que só o facto de terem chegado aonde chegaram os transformaria em heróis. Seria a décima taça orelhuda para uns, a primeira para outros. Ficou o Real com ela, como bem sabemos, e agora dizem que foi ultrapassada uma pequena maldição — a da décima, que escapava aos merengues desde 2002. 

Pelo grito de raiva que significou, e como a arte da bola tem estado tão ligada a outras artes ditas belas, a conquista da décima pelo Real Madrid talvez seja um bom exemplo para outras décimas. Ainda que o campeonato seja outro, a décima do BESPhoto, que este ano se cumpre, bem pode olhar para o que se passou no Estádio da Luz e de lá tirar a inspiração para chegar à 11.ª, à 12.ª… (momento terapia de casal: parece que o que custa mais são os primeiros dez anos). 

Sou pela diversidade. Acho que o Prémio BESPhoto faz falta. Ao longo dos anos, o verniz estalou várias vezes. Houve quem recusasse a nomeação (João Maria Gusmão/Pedro Paiva, Paulo Nozolino, Luísa Cunha). Houve quem questionasse se havia photo no BESPhoto, houve quem duvidasse se o carro do júri de nomeação tinha gasolina suficiente para ir até ao Porto. Quem pusesse em causa os critérios (ou questionasse se haveria mesmo critérios…). E, claro, não podia faltar quem falasse em compadrios. 

No BESPhoto vi trabalhos muito bons e trabalhos muito maus. Paciência, o prémio não foi feito para me agradar. Nem a mim, nem ao meu dentista. Foi feito para distinguir criação artística com base na linguagem fotográfica (em sentido muito amplo, como se tem notado). E eu, nesta fase do campeonato, prefiro olhar para o que se ganhou: ganhou-se estímulo para as práticas fotográficas que se situam fora da tradição documental; ganharam-se boas exposições; ganharam-se bons catálogos de fotografia; ganharam-se discussões sobre a imagem fotográfica e não só (coisa que raramente se faz em Portugal); ganhámos artistas que desconhecíamos; ganharam artistas muito bons que nunca tinham ganho quase nada; ganharam as galerias dos nomeados e dos premiados… ganhou a fotografia (em sentido muito amplo, como se tem notado).

Durante a última inauguração no Museu Berardo, retive duas palavras ditas a propósito desta décima: “perseverança” e “coragem”. Acho que são qualidades que se podem colar a um prémio que tem sabido ser teimoso em relação a um país onde tudo acaba prematuramente, e onde, por estranho que pareça, se desdenha o que é, em geral, bem feito.

Para já, no placard do BESPhoto a arte está a ganhar ao dinheiro. Oxalá o resultado neste jogo se mantenha e o árbitro não faça soar o apito final.

E o que se perdeu? Pouca coisa. Quase nada.



BESPhoto 2014
© David Rato

07 outubro, 2014

o último BESPhoto?

Vostok
© Letícia Ramos

O BESPhoto tem 10 anos e vai ser o que tem sido
(ípsilon, 06.06.2014)


Já não há grandes dúvidas, mas quem ainda as tenha só precisa de olhar para o enfiamento das três salas que abrigam as exposições do BESPhoto 2014 no Museu Berardo, em Lisboa, para ter a certeza de que é muito mais do que fotografia o que aqui se mostra. O que vemos a partir da porta de entrada é a exploração dos limites plásticos e cénicos das práticas fotográficas que, passo a passo, vão esboroando aqueles que foram durante décadas os seus formatos criativos tradicionais. As propostas de José Pedro Cortes, Délio Jasse e Letícia Ramos (os três nomeados de uma edição que comemora um número redondo, dez anos) não defraudam a imagem de marca de um prémio que escolheu, para além do nome, o suporte, a linguagem e a prática fotográficas como ponto de partida. E que, ao longo destes últimos dez anos, tem procurado mostrar como são infinitas as possibilidades da fotografia e como com ela se podem percorrer múltiplos caminhos, vias alternativas, todo o tipo de paragens e apeadeiros desse imenso caldeirão onde fervem as artes plásticas.

O anfitrião do Museu Berardo, Pedro Lapa, chamou exactamente pela riqueza dessa diversidade quando, na inauguração das exposições, chegou o momento de fazer o elogio do percurso até aqui traçado. Pouco depois, em conversa com o Ípsilon, lembraria um dos principais propósitos do BESPhoto, que ao longo do tempo tem sido alvo de críticas justamente por se “desviar” das propostas fotográficas mais clássicas. “O que encontramos neste prémio são trabalhos sobre as possibilidades e as tecnologias da imagem. E a relação que essas tecnologias têm ora com a própria história da arte, ora com os seus protagonistas, como a memória, o arquivo, o documento, as convenções ou as subversões das convenções. Esta diversidade é constitutiva do que são hoje as práticas fotográficas. Já não podemos pensar na fotografia como um papel onde é impressa — se calhar de forma analógica — uma imagem. Esse mundo teve o seu tempo.”

Num país onde escasseiam as distinções capazes de potenciar trabalhos que tenham a fotografia como base criativa na sua prática conceptualmente mais ampla (excepção talvez para os Encontros da Imagem de Braga), Pedro Lapa destaca ainda a persistência com que o principal mecenas do BESPhoto, um banco, tem encarado o prémio e tentado encontrar formas de garantir a sua continuidade e expansão. Em 2010, a abertura a países de língua oficial portuguesa foi uma delas. “Um prémio que chega aos dez anos merece que se sublinhe a sua perseverança. É de louvar, porque em Portugal este tipo de iniciativas tende sempre a desfalecer ao fim de um certo tempo. Esta, não. Tem continuado. E não só tem continuado como tem expandido o seu programa.”

O som vai estar alto

Um sinal de como esta teia de relacionamento e de prestígio além-Atlântico vai dando os seus frutos é a maneira como a brasileira Letícia Ramos (S. Antônio da Patrulha, 1976) vê a sua presença no prémio. Num momento em que afirma estar a abandonar as câmaras fotográficas (umas construídas por si, outras oferecidas, outras compradas…), Letícia afirma-se “surpreendida” pela nomeação e elogia a forma “corajosa” como o prémio tem apresentado “um tipo de fotografia que não é convencional”. “A fotografia é um dos suportes do meu trabalho, que é sobre a natureza da imagem, mas eu não sou fotógrafa — sou uma artista que trabalha com fotografia. Fico feliz com este tipo de escolha, porque revela o que o prémio tem sido e o que vai ser.”

Como que a lembrar permanentemente que nem só de fotografia trata o BESPhoto, o som da curta-metragem Vostok, de Letícia Ramos, a última obra do percurso expositivo, é uma constante em todas as salas da mostra. “O som vai estar alto, mas combina com o que vou falar”, avisou Letícia no início da apresentação do seu projecto expositivo a que chamou Nós sempre Teremos Marte. A música orquestral cinematográfica, de mistério denso, intercalada por barulhos aquáticos e comunicações de walkie-talkie, recria uma expedição científica às paisagens e às águas geladas de um lago pré-histórico da Antárctida, à boa maneira de Júlio Verne ou Jacques Cousteau. Ao longo dos oito minutos de filme, em ambiente de sala de cinema, somos confrontados com a dúvida sobre o que há de verdade e de documento no que estamos a ver. A intenção de Letícia é essa: confundir. Viciada em noticiários de ciência, a artista gaúcha gosta de questionar o estatuto das imagens produzidas pela comunidade científica, muitas vezes encaradas como matrizes, como documentos originais inquestionáveis. Para ela, essas imagens revelam ao mesmo tempo uma enorme abstracção, “uma poética” que lhe interessa explorar, não para descobrirmos alguma coisa mas sobretudo para aceitarmos a experiência do “desconhecido” e do dúbio. E para aprendermos a questionar o que se apresenta como absoluto.

“A minha produção sempre esteve relacionada com esse lado mais romântico das invenções e das descobertas. A ideia da exposição é trabalhar com o imaginário da fotografia da ciência e tentar desconstruí-lo”, explica Letícia, que vê nesta exposição uma mudança de rumo no seu método de criação. Até aqui era ela que fazia ou que procurava as câmaras que melhor se ajustavam às imagens que queria mostrar. Agora parte da construção conceptual das imagens e só depois pensa com que formato ou tecnologia as apresentará. O microfilme foi um dos suportes que mais explorou, talvez por causa do poder que ainda representa no Brasil, onde está presente em muitas instituições e arquivos e é classificado como “documento original”. É o tipo de convenção que se põe a jeito para o escrutínio criativo da artista. “Esta noção de original é muito estranha, porque com o excesso de uso o microfilme abstrai a imagem, o que significa que se vai construindo outra imagem.”

O estudo dos suportes e dos dispositivos em que são depositadas as imagens é uma das questões centrais na obra de Letícia Ramos, que cultiva ainda um gosto particular pela subversão dos formatos fotográficos, como quando apresenta fotografias de fotografias polaróide sem que a estética associada a esta se sobreponha ao conteúdo (elementos já de si pouco óbvios de detectar, como espectros, fantasmas, clarões, tudo coisas “sobrenaturais”). O culto da imagem das “auras inesperadas”, dos acidentes e das manipulações fantasmagóricas será, aliás, o próximo corpo de trabalho de Letícia, que gosta de “enganchar” umas coisas nas outras. Mas isso já será outra exposição.

Nas fronteiras da memória

Quem também gosta de “enganchar” umas imagens nas outras é o angolano Délio Jasse (Luanda, 1980), que apresenta o projecto expositivo mais espectacular entre os três nomeados. Numa sala situada entre as fotografias de hiper-realismo quotidiano de José Pedro Cortes e das ficções científicas de Letícia Ramos, Jasse propõe feixes de luz coloridos sobre tinas de água onde bóiam grandes impressões. Estes “documentos fotográficos”, como os classifica, revelam uma síntese perfeita entre a sua principal formação técnica — a serigrafia —, as referências que norteiam as suas propostas criativas — a memória, o arquivo —, e a sua experiência pessoal, patente na imagética gráfica de carimbos e números que povoou o longo processo burocrático até à obtenção da nacionalidade portuguesa.

A manobra criativa de Délio Jasse é herdeira de uma forte experiência de laboratório e de uma ideia de construção de imagem em camadas. Em Ausência Permanente, o artista angolano propõe uma reflexão sobre as transformações e o (des)ordenamento do espaço a que tem estado sujeita a capital Luanda e a memória de portugueses que por lá passaram. A iluminação que Jasse faz incidir sobre as imagens remetem para uma ideia de cidade sob escrutínio, uma cidade que está debaixo de focos de luz. Luanda vive “um processo de iluminação”, um lugar para onde “toda a gente olha”, mas nem sempre por bons motivos. Délio Jasse dá exemplos: a destruição do mercado de Kinaxixe (considerado uma pérola da arquitectura modernista) ou do prédio Cuca (em 2011), dois equipamentos que serão substituídos por centros comerciais. “Só querem arranha-céus. Estamos a falar de negócio. Não estamos a falar de escolas, hospitais… Estamos a falar de dinheiro. Há muitas obras feitas só para impressionar.”

Ao nível do chão, os retratos ampliados a partir de negativos de vidros comprados em feiras de rua misturam-se com paisagens urbanas em desalinho ou onde já existiram edifícios históricos. Uma terceira camada revela todo o tipo de marcações gráficas relacionadas com burocracia ou troca de correspondência pessoal ou de terceiros não identificados. “Há aqui também algo de reflexão sobre a história colonial que me leva às fronteiras da memória e da identidade”, explicou na apresentação da mostra que, juntamente com as outras duas exposições, será analisada pelo júri de premiação composto por Elvira Dyangani Ose, curadora de arte internacional da Tate Modern (Londres), Luis Weinstein, fotógrafo e organizador do Festival Internacional de Fotografia de Valparaíso, e María Inés Rodríguez, directora do CAPC, Musée d’Art Contemporain de Bordeaux. A decisão final sobre o vencedor será conhecida no dia 2 de Julho.

Sair de casa, olhar à volta

Com os pés cada vez mais assentes no presente, no dia-a-dia e no que o rodeia num raio muito curto está José Pedro Cortes (Porto, 1976). O momento que marcou a decisão de apresentar um conjunto de imagens orientadas pelo tempo e não pela narrativa ou pela serialidade, como até aqui vinha sendo norma no seu trabalho que tem sido sobretudo divulgado em livro, foi de tal maneira importante que Cortes quis assinalá-lo logo à partida. Um Eclipse Distante começa com uma fotografia do curto obituário que a artista Laurie Anderson escreveu para o marido, Lou Reed, dias depois de o músico ter morrido, a 27 de Outubro de 2013. Funciona como um pionés, só que, em vez de fixar um lugar, fixa um tempo muito preciso (a exposição esteve para se chamar O Ano em Que Lou Reed Morreu).

Aliado ao registo diarístico e de quotidiano urbanístico, muito focado nas falhas, nos acidentes paisagísticos e naquilo que pode representar algum tipo de incoerência, a proposta expositiva do fotógrafo e editor aposta muito no retrato e no corpo femininos. É um género já antes explorado no seu trabalho, mas talvez só agora surja com a intenção clara de mostrar o processo de construção e a procura da “imagem perfeita”, o que na verdade não passa de um desejo utópico (assumido), tanto para fotógrafo como para fotografadas.

O livro mais recente de José Pedro Cortes, Costa, um dos trabalhos que lhe valeram a nomeação para o prémio, ajudou-o a recentrar geograficamente a sua fotografia (agora mais próxima do lugar onde vive, Lisboa). Foi lá que conseguiu isolar um tipo de luz ofuscante, do Sul, que marca cada vez mais presença nas suas imagens do espaço público e que nesta exposição volta a ter um lugar de destaque. A tentação de fazer “um estado da arte” a partir de imagens captadas antes desta nomeação era grande, mas José Pedro Cortes preferiu trabalhar com novas imagens criando um projecto expositivo que aposta em formatos muito distintos. “Tinha de construir alguma coisa que me desse prazer fazer. As imagens de Costa ajudaram a focar-me em Portugal, em coisas que me são próximas. Já tive a sensação de que precisava de sair para fotografar, para fazer alguma coisa. Hoje, sinto precisamente o contrário — sinto vontade de fotografar aqui, à volta da minha casa.”

É na ponte entre espaço público e privado, entre paisagem e retrato, que o fotógrafo procura “construir uma harmonia entre superfícies” e uma “materialidade na fotografia”, na busca de “uma narrativa que não é em si uma história”. Quanto mais não seja, para sentirmos que a fotografia ainda pode ser palpável.



© José Pedro Cortes

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©  Arquivo Municipal de Lisboa

...então, vamos lá outra vez...

04 junho, 2014

*À conversa com...



António Júlio Duarte, Japan Drug, 1997
© António Júlio Duarte
...António Júlio Duarte

Dizem que houve casa cheia na livraria STET no lançamento de Japan Drug, o novo livro de António Júlio Duarte, mais um com a chancela da Pierre von Kleist. Foi um livro de gestação demorada, ritmo lento e caminhos em ziguezague, tudo coisas ao gosto do autor. Relato de dois dedos de conversa com um inimigo à mistura – o relógio.

(…)
Este livro teve um processo de edição demorado, com paragens pelo meio. Passou por rever todo o material que tinha…

…e foi desta viagem ao Japão que nasceu também o Deviation of the Sun
Sim, os trabalhos do Japão não estavam resolvidos. Faltava fazer qualquer coisa com eles, só que ainda não tinha encontrado uma forma definitiva. Acho que agora estão fechados.

Estes livros obrigaram-te a rever o teu percurso?
Foi interessante. Todo o processo foi interessante, era uma coisa que nunca tinha feito – rever um corpo de trabalho que tinha mais de 15 anos. Voltar atrás, ver o que fiz o que não fiz, perceber de onde é que vieram muitas das coisas que estou a fazer agora. E mais curioso do que isso foi encontrar imagens que, na altura, não tinha compreendido. Fazem todo o sentido agora e apontam para coisas que fiz depois. Na altura não soube olhar para elas ou por qualquer circunstância não reparei nelas. Ou então não as sabia mesmo ver. Ainda estou a pensar nisto. Foi muito curioso. Havia imagens de que já não tinha recordação - foi como fotografar outra vez.

Tenho a sensação de que os fotógrafos gostam pouco de regressar a trabalhos antigos, muitas vezes porque sentem vergonha deles…
É verdade, mas às vezes também é porque já se afastaram muito deles. Mas acho que 15 anos é pouco. Temos uma relação estranha com o tempo agora. É tudo demasiado rápido. Quinze anos não é muito. Há trabalhos que precisam desse tempo. Outros são mais imediatos. Isto faz-me pensar também que os trabalhos nunca estão realmente fechados. Dá sempre para voltar atrás. Pelo menos foi o que senti em relação a este corpo de trabalho. Era um trabalho especial. Foi muito importante para mim. O facto de estar sozinho, de ter trabalhado intensamente durante três meses.

Mas esta não foi a tua primeira experiência no oriente...
Não, não. Mas foi a mais intensa. Estar sozinho, tanto tempo. E de ter esse luxo de estar ali só para fotografar, sem pensar noutras coisas.

Partiste para este trabalho de revisitação com algum preconceito?
Não. Isto começou por um convite do Centro Cultural Vila Flor de Guimarães para fazer uma exposição. Eles queriam algo retrospectivo. De momentos que eu achasse importantes. Pensei então que faria mais sentido pegar num único corpo de trabalho. Neste exercício era possível fazer uma coisa que queria ter feito há já algum tempo que era expor apenas provas de contacto, uma coisa que os fotógrafos nunca mostram ou que têm muita relutância em mostrar. Este trabalho prestava-se a isso porque tem um volume grande – são seiscentas provas de trabalho. Sempre as quis ver numa sala. Mas por variadas circunstâncias este livro não saiu na mesma altura que a exposição de parte dessas provas. Fazia todo o sentido que esta escolha fosse confrontada com as provas de contacto. Era isso que estava previsto. Se isso tivesse acontecido era possível ver a maneira como penso, como edito, como escolho a partir de qualquer coisa. Era jogo aberto estaria tudo às claras. Teria feito todo sentido…

Ao longo do livro damo-nos conta de um jogo entre artificial e real ou entre aquilo que parece artificial e aquilo que não pode fugir ao real. Fizeram uma sequenciação a pensar nesta alternância?
Foi uma coisa que se impôs. Mas não de uma forma estudada, nem demasiado racional. A sequenciação foi feita de uma forma muito fluída, sem perder muito tempo a pensar por que é que uma imagem fazia sentido ao lado da outra. As imagens foram encontrando o seu lugar. Não havia uma ideia preconcebida. Foi aparecendo uma ondulação, um ritmo…
Mas houve algumas coincidências curiosas durante o trabalho de edição, que, como já disse, foi demorado. Li livros do Lafcadio Hearn, um jornalista que foi para o Japão em meados do século XIX e ficou por lá. Os livros dele têm uma ideia fundamental: não se pode perceber o Japão, tudo é ao contrário – os bichos parecem ferramentas, as ferramentas pode ser outra coisa qualquer. Não se consegue perceber nada no Japão. Depois dele várias pessoas reafirmaram esta ideia de que como ocidentais não podemos conhecer o Japão. Há passagens onde ele diz que os objectos se confundem com as coisas vivas e as coisas vivas se confundem com objectos.
Mas houve outra coisa que descobri agora e que tem a ver com o trabalho de casa que se calhar deveria ter feiro na altura: 1997 foi o início de uma grande crise financeira que arrastou toda a ásia. Este trabalho ganhou ainda mais sentido hoje. Daí o texto referir que a inquietação pessoal não passou. E a inquietação do mundo também não.

Conseguiste perceber alguma coisa do Japão?
Não! Acho que qualquer pessoa de bom senso não pode afirmar outra coisa. Correspondeu a todos os clichés que levava e surpreendeu-me sempre também. O Chris Marker também dizia que não se deve tentar perceber o Japão.

Hesitaste muito na sequenciação? Ou mudas pouco?
Gosto de ter sempre outras pessoas sequenciação. Porque trazem um olhar desapegado em relação às imagens. As coisas levam o seu tempo e não se podem forçar. Há dias em que se consegue ter um ritmo de edição muito bom e outros em que se consegue colocar só uma imagem.

Ficaste surpreendido com o que encontraste?
Fiquei. Na altura talvez me faltasse qualquer coisa para o perceber…

Noto que há outra constante ao longo das imagens: as pessoas de costas. Gostavas de passar despercebido?
Era um fotógrafo um bocado mais discreto na altura. E mais tímido também [risos]. Mas também tem a ver com um certo respeito, com um código de boa educação para com as pessoas.

Sentias que a fotografia era uma agressão?
Sim. Era uma forma de não impor a minha presença. Queria passar pelas coisas sem as perturbar muito. Um respeito por um território, pelas pessoas. No Japão sente-se muito isso. Quis manter alguma distância. Procurei não perturbar a harmonia das coisas. É muito intuitivo, deixamo-nos ir nessa atitude.

Lembravas-te da maior parte das imagens?
Lembrava-me de todas as imagens. Não consegui compreender muitas delas na altura. Fazer este trabalho foi um bocado como voltar ao Japão. E agora gostava de voltar fisicamente. Deu-me vontade de voltar. De perceber melhor. Este trabalho abriu-me imensas opções. Fechei qualquer coisa e tenho um leque de opções vasto à minha frente. Reconciliei-me um bocado com o preto-e-branco também. Quem sabe…

Mas este trabalho era uma pedra no sapato?
Não era, mas sentia que não estava arrumado. Não tinha sido visto com olhos de ver. Estava instável.

António Júlio Duarte, Japan Drug, 1997
© António Júlio Duarte

Neste percurso não há grandes referências geográficas… não há uma ideia de centro…
Isso tem a ver com a organização das cidades japonesas. Foi com elas que percebi o que é que os fotógrafos japoneses queriam dizer quando falavam nas suas deambulações pela cidade. As cidades não têm um centro, não tem essa estrutura. Tóquio não obedece à nossa lógica de organização de cidades. A numeração dos prédios está organizada por ordem de construção. Tudo isto faz com que seja preciso adoptar uma maneira de andar na rua completamente diferente do que é andar aqui. Acordava de manhã e pensava: quero ir a este sítio, mas ao mesmo tempo pensava que poderia nunca lá chegar naquele dia. Tinha de me deixar levar pelo que podia acontecer, é a verdadeira deambulação pela cidade. No ocidente lidamos muito mal com isto, com esta falta de referências. Temos medo nos perder. No Japão, é preciso não ter medo da desorientação, caso contrário falha-se completamente a experiência da cidade. Claro que agora é diferente, na altura não havia gps, iphones. Hoje, a experiência do espaço é diferente - ninguém se perde. Só nos perdemos se quisermos. Passou a ser uma opção.

Aceitavas essa ideia de desorientação…
Aceitava. Saia de casa e deixava-me ir. Deixava que uma coisa me levasse à outra. E acho que o livro reflecte isso. De uma coisa passa-se para outra sem uma noção de centro. Quisemos criar a sensação de andar à volta das coisas. Mas é um circular inconclusivo, a última imagem mostra pessoas a atravessar em ambos os sentidos uma linha de comboio. A continuarem a sua vida…

Foram meses em que fotografaste intensamente…
Sim, fotografava todos os dias, de manhã à noite. Foi um período de grande aprendizagem. Foi importante por isso e também porque fiquei a conhecer muito melhor o trabalho de fotógrafos japoneses. Antes de ir para lá praticamente só conhecia o [Shomei] Tomatsu e o [Nobuyoshi] Araki (quem não conhece o Araki…). O primeiro livro do Daido Moryama que vi foi em Tóquio. Se o tivesse visto fora de Tóquio (curiosamente era um livro feito em Nova Iorque) acho que não o teria percebido. Não o teria aceitado da mesma forma. Mas pensei: “Este gajo está certo!” Aquilo que ele dizia sobre a deambulação pelas cidades faz todo o sentido.

Como vês o boom da fotografia japonesa hoje?
Fico contente. Porque acho que têm finalmente o visibilidade que merecem. Naquela altura talvez só o Araki fosse conhecido mundialmente por razões que não são puramente fotográficas [risos]. Havia o trabalho do Tomatsu, fotógrafo de que gostava muito e que também percebi melhor quando estive lá.
Mas uma das coisas que mais me tocou lá foi uma frase do Penalva. Quando esteve em Hiroshima, onde tinha feito uma instalação, notou que se escavássemos quinze centímetros no solo tocaríamos na terra que esteve em contacto com a bomba. Essa ideia era muito forte e era muito presente. Mas não quis que este livro fosse sobre essa nuvem.

Este livro é sobre...
Não sei sequer se é um livro sobre o Japão. É um livro feito com imagens no Japão por mim.

Vemos que há muitos animais nas imagens escolhidas para o livro…
Há muito a cultura da representação. Havia pequenos zoológicos pelas cidades. Muita selva. Não sei se fui eu que os procurei ou se foram eles que me encontraram.

A arquitectura foi outra coisa que surpreendeu?
A arquitectura tocou-me bastante. Aliás, essa era uma parte do trabalho que não estava visível. No pouco que tinha mostrado [no Centro Português de Fotografia, em 1999] havia mais as pessoas e rostos. Essa parte que tinha a ver com a organização do espaço tinha ficado um pouco de lado.

Este livro foi uma boa experiência? Foi libertador?
Sim, foi sobretudo libertador. Abriu outras possibilidades. Os últimos três livros foram feitos de uma maneira um bocado caótica. Se calhar o White Noise [Pierre von Kleist, 2012] seria melhor percebido depois deste livro. Por outro lado, também gosto que ele tenha saído depois. Quem quiser pode relacioná-los. É bom que as coisas não sejam lineares, que tenham os seus ziguezagues.
Pode haver quem diga que isto é trabalho feito há 17 anos. Mas este exercício de revisitação para mim é um princípio, uma espécie de resistência à velocidade a que hoje se fazem as coisas.

É como se estivesses a dizer “por que é que se tem de mostrar uma coisa feita ontem?”
As pessoas agora mostram uma coisa feita há 5 minutos. Que fizeram há um minuto. Eu não lido muito bem com isso. Acho que as imagens precisam de tempo, precisam de assentar. Como o vinho. O fotógrafo americano Duane Michaels dizia isso. Lembro-me de ele ter dito isso cá numa conferência…

...na altura da exposição da Gulbenkian [Duane Michaels - há palavras que têm de ser ditas (1990)]?
Talvez, ou então foi em Coimbra. Vi mais do que uma exposição dele em Portugal. Foram belas exposições e boas conferências. E numa dessas conversas ele dizia algo semelhante, que era preciso deixar descansar as fotografias, deixá-las repousar. Aconselhou ainda a não ter pressa de mostrar. E disse que tudo levava o seu tempo. Olhar para um trabalho que fiz há mais de 15 anos deu-me esse gozo também, um gozo de e resistência. Porque não trabalhar sobre uma coisa feita há 15 anos? Para mim, isto não é arqueologia. Um filho com quinze ainda está na idade do armário.

E a imagem da capa? Que loja era aquela?
Era uma loja que vendia afrodisíacos. Na altura nem percebi bem o que vendia. É uma espécie de farmácia, algo que tem a ver com a medicina tradicional chinesa e japonesa. Vende afrodisíacos e remédios com tudo o que é ingredientes proibidos e de espécies em extinção. O que me interessou nesta imagem foi sobretudo a luz, o nome da loja, o ambiente que a rodeia…


António Júlio Duarte, Japan Drug, 1997
© António Júlio Duarte

01 junho, 2014

HCB


George Hoyningen-Huene, Henri Cartier-Bresson, Nova Iorque, 1935
© The Museum of Modern Art, Nova Iorque/Scala, Florença


Entre o antes e o depois da fotografia, Henri Cartier-Bresson
(ípsilon, Público, 14.05.2014)

Uma retrospectiva entre Paris e Madrid põe um fotógrafo fundamental — a quem devemos boa parte da iconografia mais reconhecível do século XX — em contexto. E acaba de vez com a conversa do “instante decisivo”.


“Il ballerino!”, disse em voz alta um italiano. E num ecrã um homem parecia bailar. Punha-se em bicos de pés. Esticava-se, contorcia-se, levantava ligeiramente um pé, outro, até encontrar uma zona de equilíbrio. Fazia movimentos repentinos (meio contorcionistas, meio apalhaçados), erguia o pescoço, espreitava, talvez no encalço de um enquadramento capaz de juntar na mesma linha “cabeça, olhar, e coração”. E, caso esse momento se lhe oferecesse, disparava.

O palco deste “bailarino”, deste caçador — fato completo, alto, esguio —, é a rua em bulício, no meio de muitas pessoas, carros a passar, caixas de fruta empilhadas. E o nome é Henri Cartier-Bresson (1908-2004), o fotógrafo superlativo, o dono do olhar que nos deixou boa parte da iconografia fotográfica mais reconhecível (mais matricial e inovadora também) do século XX.

Esta amostra da frenética coreografia que Cartier-Bresson punha em prática no seu trabalho foi retirada do documentário-entrevista L’Aventure Moderne (1962), de Roger Kahane, e é-nos mostrada já perto do fim da grande retrospectiva que o Centro Pompidou, em Paris, dedica ao fotógrafo francês (a primeira na Europa depois da sua morte). À frente do ecrã, juntam-se pequenos grupos, que, entre risos pela forma desconcertante como este homem se movimentava de Leica na mão, descobrem um modo de actuação afinal cheio de hesitações, longe da imagem de “fotógrafo-matador” (implacável na caça) que se foi construindo à volta de Henri Cartier-Bresson, talvez o nome que mais se confunde com o da arte a que mais se dedicou: “Observar, observar, observar”. “É pelos olhos que compreendo”, disse um dia o fotógrafo que detestava ser fotografado (e de aparecer em público, de ser reconhecido).

Até se chegar ao complexo (e divertido) jogo de pernas cartierbressoniano da exposição (que fica em Paris até 9 de Junho e depois se aproxima de nós: estará na Fundación Mapfre de Madrid de 28 de Junho até 8 de Setembro), é preciso passar por centenas de fotografias (a maior parte cópias de época), muitas das quais imediatamente reconhecíveis por quem tenha o mínimo de cultura visual (não necessariamente ligada à fotografia). Esta opção de manter um bom número de imagens-cliché não é só inevitável — é também consciente e serve para sublinhar uma selecção mais secreta (e politizada), verdadeiro contraforte na interpretação de uma obra que pode não ser assim tão conhecida como se pensa que é. Uma obra conceptualmente muito diversificada, também contrariamente ao que se pensava, e isto muito por culpa do autor, que sempre lutou por dar a máxima unidade formal ao seu trabalho, por si controlado meticulosamente (em reproduções, exposições e livros) ao longo da vida.

Até à sua morte, Cartier-Bresson fez questão de supervisionar todas as mostras que incluíssem imagens suas, garantindo que as tiragens eram feitas apenas para essas ocasiões, em um ou dois formatos e utilizando papéis fotográficos com a mesma qualidade de grão, tonalidade e superfície. Sempre dedicou um cuidado extremo às exposições e, muitas vezes, foi enquanto as organizava que tomou decisões cruciais acerca do rumo do seu trabalho.

Camagüey, Cuba, 1963
© Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos, cortesia Fondation Henri Cartier-Bresson


Além do instante decisivo

A maneira como as imagens de Cartier-Bresson foram sendo circunscritas ao mundo muito particular do seu próprio criador é muito devedora da famosa noção de “instante decisivo”, que tem tanto de certeira como de redutora. O fotógrafo utilizou parte de um axioma de Jean-François Paul de Gondi (1613-1679), cardeal de Retz, segundo o qual “não há nada no mundo que não tenha o seu momento decisivo”. Estas duas últimas palavras acabaram por formar o título do prefácio que assinou no seu primeiro livro, Images à la Sauvette, publicado em 1952, naquele que é o seu primeiro (e mais profundo) texto sobre fotografia, a forma como concebe a sua prática, a sua ética e a sua metodologia. Ao defender que os fotógrafos deviam procurar captar o “instante decisivo”, Cartier-Bresson acabou por estampar um carimbo estilístico em cima das suas imagens que com o passar dos anos se foi tornando mais um empecilho do que uma marca distintiva ou um modelo a seguir. É um selo que acabou também por se transformar numa sanguessuga capaz de esvaziar as imagens de alguma dinâmica perceptiva relacionada, por exemplo, com imaginário acerca do que pode estar antes ou depois. Ou simplesmente de as esvaziar do acidental. Mas para além desta muralha, o mestre francês foi capaz de erguer outra, porventura ainda mais alta, quando, em 1979, decidiu criar a master collection, uma selecção de 385 fotografias que considerava as melhores do seu arquivo e que destinou a instituições internacionais com o objectivo de fornecer o derradeiro mosaico do seu trabalho. Foram impressos seis jogos de provas, quatro dos quais estão em museus de França, Japão, EUA e Reino Unido. Mas, passado algum tempo, foi o próprio a autorizar que a essa primeira escolha se acrescentassem mais fotografias ou que, quando mostradas em público, se fizessem outras escolhas. E por aqui já se percebe como as imagens fotográficas, por mais extraordinárias que sejam, convivem mal com demasiados espartilhos, nomeadamente com os que tentam impor leituras (preconceitos, chaves de leitura) antes de chegarem à percepção de cada um.

Não é de estranhar que em todos os textos assinados no catálogo da exposição do Pompidou se refira a parangona do “instante decisivo”. Mas desta vez não é para a elevar aos píncaros pela expressão que terá conseguido impor nas fotografias de Henri Cartier-Bresson, mas justamente para a relativizar e para tentar distanciar esta retrospectiva do anátema que o fotógrafo lançou sobre as imagens que foi registando ao longo de mais 70 anos. “A não ser que se quisesse refazer sempre a mesma exposição e o mesmo livro, torna-se evidente que, apesar de conter a maior parte dos seus maiores ícones, a master collection não permite apresentar uma obra em toda a sua diversidade criativa”, refere o texto de introdução do monumental catálogo organizado por Clément Chéroux, comissário da mostra e um dos maiores especialistas do trabalho de Henri Cartier-Bresson. Ali o “instante decisivo” é atribuído à necessidade que os exegetas têm de encontrar alguma coisa que simbolize a “unidade da obra” do fotógrafo, e que, numa expressão, resuma “o génio da composição”, a “capacidade de movimentação” ou sua “habilidade para estar no sítio certo“.

A tentativa de libertar as imagens de Cartier-Bresson da armadilha (e da expectativa) do “momento do tudo ou nada” é um dos desafios assumidos nesta empreitada levada a cabo pela equipa do Pompidou e pela fundação com o nome do artista (foram precisos três anos para concluir a estrutura da exposição). Nas duas últimas retrospectivas, em 2003, na Biblioteca Nacional de França, também em Paris, e em 2008, no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque, o espectro desta chave estética (que muitos consideram mais uma regra de conduta moral e social perante a sua prática fotográfica) ainda esteve muito presente. Na primeira, em jeito de homenagem comissariada pelo editor Robert Delpire (criador da mítica colecção Photo Poche), a presença em vida de Cartier-Bresson (que inaugurou no mesmo ano a sua fundação) terá necessariamente condicionado as principais orientações, que privilegiaram as fotografias “clássicas”. Na segunda, da responsabilidade de Peter Galassi (antigo conservador-chefe de fotografia do MoMA), foram preferidos critérios temáticos e geográficos objectivamente mais voltados para os trabalhos que fossem “sinónimos do instante decisivo”.

Agora, a partir de mais de meio milhar de fotografias, desenhos, pinturas, filmes, livros e outros documentos gráficos, a exposição de Paris (que tem sido um enorme sucesso de bilheteira, com tempos de espera para entrar que podem chegar às duas horas) reclama o ceptro do “inédito”, se é que tal classificação pode ser ambicionada para um fotógrafo como Cartier-Bresson, cujo trabalho tem sido mostrado à exaustão. O ponto de partida de Chéroux foi o coração da sua obra: as mais de 30 mil reproduções de época que estão à guarda da fundação. Para além destas, foram consultados e estudados provas de contacto, livros, escritos (notas, cartas…) e as poucas entrevistas de fundo que concedeu. Foram ainda ouvidos testemunhos de quem com ele privou. Esta abordagem (“decididamente histórica”) teve por objectivo “refazer” as leituras da obra “não de um, mas dos vários Henri Cartier-Bresson”, que se foram moldando às circunstâncias de tempo e espaço. Hic et nunc (latim para “aqui e agora”) era uma expressão muito cara ao fotógrafo e é usada pelo comissariado para indicar o princípio geral que se quis aplicar a esta retrospectiva, como quem tenta fazer regressar à terra uma nave espacial que andou perdida no cosmos. “O Henri Cartier-Bresson que aqui se tratou não é utópico nem anacrónico (…), é um Henri Cartier-Bresson em contexto”.


Fila para entrar num banco nos últimos dias do Kuomintang, Xangai, China, Dezembro de 1948
© Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos, cortesia Fondation Henri Cartier-Bresson


Três Cartier-Bresson

As grelhas de análise que tradicionalmente se utilizam para situar a obra de Cartier-Bresson dividem-se em duas tendências muito distintas. Uma, assente sobretudo na historiografia americana, atribui às fotografias o estatuto de “obra” dentro do contexto das artes plásticas, essencialmente as imagens produzidas durante os anos 30. Outra, de raiz francesa, enquadra a produção de Cartier-Bresson a partir das qualidades fundamentais atribuídas à fotografia, a partir da reportagem e da edição e, apesar de reconhecer valor plástico às suas imagens, jamais descarta a sua qualidade como documento, preferindo os trabalhos do pós-guerra, das décadas da cooperativa Magnum, que ajudou a fundar em 1947.

A retrospectiva do Pompidou tenta fugir a uma abordagem maniqueísta, descartando a tentação de “pôr em oposição” ou de “reconciliar” estas duas visões tão díspares da obra do mestre francês. Sem renegar uma e outra, propõe a sua própria visão assente em três pilares fundamentais. O primeiro, que se refere à produção feita entre 1926 e 1935, é profundamente marcado pelo contacto com tertúlias de grupos ligados ao surrealismo, inclui as primeiras fotografias captadas com uma Brownie Box, e as grandes viagens pela Europa, pelo México e pelos EUA. O segundo, que se inicia com o regresso dos EUA e termina com uma nova viagem para Nova Iorque, em 1946, é determinado pela militância política, pelo trabalho para a imprensa comunista, pelo cinema e pela guerra. O terceiro começa com a criação da agência Magnum e conclui-se no início dos anos 70, depois de ter decidido abandonar progressivamente a fotografia de reportagem para se dedicar a algumas das suas primeiras aspirações artísticas, o desenho e a pintura.

Entre as dualidades típicas do pré e do pós-guerra, a do artista e a do repórter fotográfico, o período do meio acabou por se tornar menos conhecido. No entanto, é talvez aquele que melhor ajuda a perceber todas as escolhas de carreira e de estilo que se seguiram e que tornaram Cartier-Bresson um nome fundamental da afirmação do fotográfico como um suporte moderno, poderoso e eficaz para comunicar, testemunhar e denunciar. Numa tentativa de revelar as principais orientações do seu olhar e os assuntos em que decidiu investir mais tempo, esta retrospectiva tem a virtude de trazer um número considerável de documentos originais e de publicações de época. As reportagens que realizou para a imprensa comunista (Regards, Ce Soir…), por exemplo, são mostradas com grande destaque e começam a revelar um gosto pelos “assuntos sociais”, de pendor humanista, como a pobreza, as crianças na rua, a joie de vivre (um género muito parisiense) ou as manifestações de rua.

Mas uma das primeiras coisas que espantam nesta mostra é o talento precoce de Cartier-Bresson no olhar certeiro e, sobretudo, na eficácia da composição da imagem fotográfica, um olhar moldado pelo desenho e pela pintura, que aprendeu, no final dos anos 20, na academia de André Lothe (1885-1862), pintor e escultor fauvista e cubista, que incute no fotógrafo a obsessão pela geometria visual. É nessa altura que começa a frequentar também os círculos surrealistas e a fazer colagens muito influenciadas pelo amigo Max Ernst (que foi chamado para o momento em que Cartier-Bresson disse ao pai que seria fotógrafo, quando tinha 22 anos). A partir deste caldo de influências diversificadas forma-se uma exigência cada vez maior, e um olhar clínico que se revela essencialmente a partir da primeira viagem a África, entre 1930 e 1931, que tinha como missão a procura de negócios para as empresas da família, ligadas ao algodão e aos tecidos. Um grupo de amigos americanos (Julien Levy, o primeiro a expor o seu trabalho nos EUA, Caresse e Harry Crosby, Gretchen e Peter Powel, que tinham uma cultura fotográfica muito actual e apurada) dão-lhe a conhecer, entre outros, Eugène Atget (1857-1927), uma das principais influências das primeiras fotografias de Cartier-Bresson (manequins, vitrines, fontes tipográficas de velhas lojas, santos…), bem como a corrente germano-soviética da Nova Visão (ângulos radicais, composições geométricas, repetição de motivos…).


Livorno, Toscânia, Itália, 1933
© Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos, cortesia Fondation Henri Cartier-Bresson


“Um duro prazer”

É um Henri Cartier-Bresson cheio de informação, um tubo de ensaio artístico, aquele que decide dedicar o seu talento e o seu saber “à arte” (prefácio de Images à la Sauvette). Sedento de aventura e depois de despachar os negócios que o levaram ao continente africano — Costa do Marfim, Camarões, Togo e Sudão —, Cartier-Bresson entrega-se à fotografia. Manda rolos para França e, numa carta à mãe, mostra-se curioso com o resultado da revelação. “Tenho tirado muitas fotografias”, diz na missiva de Janeiro de 1931.

O exotismo, a antropologia visual e toda mística, muito em voga na época, acerca do “continente negro” não lhe interessaram. Preferiu o movimento das pessoas e o frenesim das ruas, o quotidiano. A experiência africana foi de tal maneira intensa que, quando regressou a França, decidiu fazer da fotografia o seu modo de vida, a sua expressão plástica, a ferramenta através da qual tentou compreender e (apreender) o mundo. O empurrão definitivo foi dado por uma fotografia do húngaro Martin Munkácsi (1896-1963), que Cartier-Bresson viu na revista Arts et Métiers Graphiques e em que três rapazes correm rumo às vagas do lago Tanganica. “Fez-me perceber imediatamente que a fotografia poderia atingir a eternidade através do momento. É a única fotografia que me influenciou. Há nela tal intensidade, espontaneidade, alegria de viver e prodígio que ainda hoje me sinto deslumbrado”, escreveu em 1977.

Com as fotografias de África e as que tirou nos meios surrealistas, no final dos anos 20, constrói o First Album (disponível digitalmente numa das primeiras salas da retrospectiva): não mais do que algumas dezenas de imagens coladas num caderno de argolas, mas que revelam claramente a intenção de fazer escolhas e delinear um estilo. A partir de então, passa a pôr os pés ao caminho não para viajar, mas para fotografar. No final de 1931, parte num velho Buick rumo a Berlim, Budapeste e Varsóvia. Em 1932, volta a partir para Itália e depois para Espanha (Alicante, Barcelona, Valência, Toledo, Madrid, Sevilha), altura em que, para muitos, terá realizado as suas melhores fotografias, aquelas em que se revelam alguns dos traços de estilo e de conteúdo que o acompanhariam. Há composições muito cuidadas, linhas fortes e geometrizantes, picados e contra-picados para mostrar o movimento de pessoas, a rua, o trabalho, o lazer e as condições de vida.

Seguindo os famosos “exercícios de purificação” dados por Lothe para chegar às composições perfeitas, através das regras da “divina proporção”, Cartier-Bresson movimenta-se à procura de “um ritmo da superfície”, das “linhas” e dos “valores”, mas não esquece, no entanto, o papel da “sorte objectiva”, que se consegue através da “sensibilidade”, da “intuição” e de uma “capacidade de antecipação”. E se há coisa que não se pode negar a esta retrospectiva é a forma como, na diversidade, procura mostrar a capacidade de Cartier-Bresson em unir estes dois talentos numa prática fotográfica sempre perseguida pela ambição da “síntese”. Mesmo quando o cinema parecia ganhar mais espaço na sua carreira (deixou vários documentários sobre a Guerra Civil de Espanha e participou em filmes de Jean Renoir, como assistente e actor), o olhar cirúrgico influenciado pela fotografia manteve-se. E, enquanto se dedicou mais às câmaras de filmar, não deixou o ofício que paradoxalmente considerava um “duro prazer”, fotografando intensamente para a imprensa comunista.

Em 1943, depois de se ter evadido de um cativeiro de três anos às mãos dos nazis, regressa à imagem fotográfica para abraçar a foto-reportagem, decisão que o conduzirá à fundação da agência Magnum (com Robert Capa, George Rodger, David Seymour e William Vandivert), no mesmo ano em que o MoMA lhe dedicou a sua primeira retrospectiva, quando já era um nome firmado internacionalmente. É o início de uma etapa que o conduzirá aos quatro cantos do mundo (Cartier-Bresson não desejava tornar-se um globetrotter) e em que será testemunha de alguns dos acontecimentos mais marcantes do século XX. A lista é demasiado vasta para caber num artigo de jornal, mas citemos apenas dois: no dia 30 de Janeiro de 1948, fotografou Gandhi em Nova Deli horas antes de ter sido assassinado (as imagens que fez do funeral deram a volta ao mundo); a 3 de Dezembro do mesmo ano estava em Pequim no momento em que o Exército Popular de Libertação de Mao Tsé-tung dava as últimas estocadas no regime nacionalista de Chang Kai-chek (ficou na China durante quase mais um ano). Nesta época, a reportagem ao serviço da cooperativa Magnum dominou a sua produção visível, mas sempre que possível ia construindo um universo fotográfico mais pessoal, longe dos constrangimentos e dos prazos da imprensa. Essas fotografias foram resumidas pelo próprio como “uma combinação de reportagem, de filosofia, e de análise social, psicológica”, uma forma de “antropologia visual” num tempo analógico em que o registo gráfico jogava um papel fundamental. Esse corpo de trabalho, que na retrospectiva assume pontualmente a forma de núcleos temáticos (Sonhadores Diurnos, O Homem e a Máquina…), é talvez o mais desconhecido e o que revela um lado (formalmente) mais livre da fotografia de Cartier-Bresson.

Quer seja para ver os macro-acontecimentos, quer seja para ver os fogachos de mundo que deslumbraram Henri Cartier-Bresson, quem quiser entrar nesta exposição deve preparar-se para esperar — se quiser ver, de facto, as provas de época, que respeitam os formatos e as (pequenas) dimensões por si impostas. E isto quer dizer também que é preciso ficar com a cara a dois palmos da superfície em que o mestre decidiu registar os seus momentos fotográficos. Afinal, talvez não tão “decisivos” assim.



Corrida de ciclismo "Os seis dias de Paris", velódromo de Hiver, Paris
© Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos, cortesia Fondation Henri Cartier-Bresson



Martine Franck, Paris, França, 1967
© Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos, cortesia Fondation Henri Cartier-Bresson

HCB humanista?

António Pedro Ferreira, emigrantes portugueses em França
© António Pedro Ferreira


Um fotógrafo humanista pouco dado ao contacto humano
(ípsilon, Público, 14.05.2014, com Sérgio C. Andrade)


O tempo que baliza o nascimento, o auge e o declínio da fotografia dita humanista corresponde, grosso modo, ao tempo em que Henri Cartier-Bresson se manteve publicamente activo na fotografia, entre 1930 e 1970. A sua prática fotográfica é citada de forma recorrente entre os que se dedicaram a dar expressão a um movimento que privilegiava a pessoa, a sua dignidade e a sua relação com o meio. Mas há também quem duvide deste alinhamento de Cartier-Bresson. Apesar de se poder considerar que a abordagem humanista é intrínseca à fotografia e um dos seus objectos permanentes, é possível delimitá-la entre o momento em que se sentiu necessidade de regressar ao real e o momento em que a fotografia-documento deu lugar à fotografia-expressão (André Rouillé).

No arranque dos anos 30, depois de uma década em que se manifestou todo o tipo de vanguardas (surrealistas, abstractas, construtivistas…), um número crescente de fotógrafos assume a vontade de voltar a olhar para o que se passa nas ruas, procurando a “precisão fotográfica” para através dela captar o espírito do tempo.

Abalada pela Grande Depressão que estala nos EUA em 1929, a classe operária sofre e os fotógrafos usam as suas ferramentas para dar visibilidade a esse sofrimento. Para afirmar esse desígnio, há um meio que ganha cada vez mais importância: a imprensa fotográfica (entre muitas outras, a Vu, a Life e a Paris-Match, fundada em 1949, que tornou célebre o lema “le poids des mots, le choc des photos”, ou seja “o peso das palavras, o choque das imagens”). E também meios técnicos de fácil manuseamento (Leica, Rolleiflex), que fixam o quotidiano de uma maneira inovadora e vívida.

A primeira década de produção de Cartier-Bresson enquadra-se nesta corrente que procura um “realismo poético”, nomeadamente com imagens que mostram a descoberta do tempo livre, as várias faces da pobreza ou o quotidiano das cidades. Apesar desta escolha de temas sociais, o fotógrafo Paulo Nozolino, que conheceu Cartier-Bresson em Paris, não identifica na sua obra nenhum traço da fotografia humanista. “Era um esteta, um formal e um dogmático. Encontro uma prática humanista em W. Eugene Smith (1918-1978) ou em Robert Capa (1913-1954), mas em Henri Cartier-Bresson não.” Para Nozolino, Cartier-Bresson “não era um fotógrafo da emoção”, e o facto de fotografar com uma lente de 50 mm colocava-o “longe do sujeito, sem contacto com ele”. “Há algumas fotografias dos primeiros tempos, sobretudo as que fez em Espanha, que ainda podem ter algum calor, mas o resto não.”

O fotojornalista do semanário Expresso António Pedro Ferreira, que estagiou entre 1982 e 1984 na Magnum, onde se cruzou com o fotógrafo francês, reconhece em Cartier-Bresson um pendor humanista, mas sublinha “a frieza, às vezes desconcertante”, de muitas das suas imagens mais conhecidas. “Ele é um virtuoso. Quem olha para as suas fotografias dirá que tem o poder da máquina do tempo, que consegue fazê-lo parar no auge de um gesto escolhendo com uma precisão matemática a abertura certa, a composição perfeita, tudo.” Apesar desta destreza, António Pedro Ferreira lembra um lado de Cartier-Bresson pouco dado a contactos pessoais: “Na Magnum, só me davam orientações se eu as pedisse. Como o meu trabalho era sobre emigrantes, fui ver todas as fotografias que tinham sobre emigração. Foi numa dessas visitas que me cruzei com ele. Era temido por toda a gente. Tinha mau génio. As pessoas tinham-lhe medo, evitavam-no. Tinha um espírito crítico implacável. Houve alguém que um dia lhe foi mostrar um portfólio e ele decidiu vê-lo de pernas para o ar.” O fotojornalista do Expresso, o único português a estagiar na mítica cooperativa, fala ainda de um homem “muito nervoso, sempre a gesticular, sempre aos pulinhos”. “Era muito enérgico, mas era um estilo de energia que parecia não dominar.”

Paulo Nozolino traça um retrato semelhante: “A composição era a única coisa que lhe interessava. Era um fotógrafo do rigor. Não era um homem muito preocupado com as pessoas. Era um burguês. Viajou pelo mundo e teve acesso a coisas que mais ninguém teve. Não me parece que tivesse a mínima empatia pelo proletário russo ou pelo operário chinês. Era pedante e frio.” O fotógrafo português afirma ainda que quando Cartier-Bresson deixou de fazer reportagem, no início dos anos 70, “sabia perfeitamente que os seus bons velhos tempos já tinham acabado”. E a partir daí “passou a ser um papa, mais do que outra coisa qualquer”. “É o papa de muita gente, mas meu não é”, insiste.

Já o francês Georges Dussaud, fotógrafo da extinta agência Rapho (fundada em 1933 e viveiro de muitos fotógrafos humanistas, como Robert Doisneau, Édouard Boubat, Bill Brandt, André Kertész, Janine Niépce, Willy Ronis e Sabine Weiss), ressalva que Cartier-Bresson “comprometeu completamente a sua vida para testemunhar o estado do mundo, a vida quotidiana das pessoas mais comuns”. Para Dussaud, que fotografou Portugal ao longo das últimas três décadas, “é preciso regressar à fotografia humanista, porque ela é um testemunho importante do mundo, de um determinado tempo histórico, e dificilmente será substituível”.

Na Magnum, António Pedro Ferreira, que durante dois anos se concentrou apenas na emigração portuguesa em França, lembra que os conselhos dos fotógrafos mais experientes iam sempre no mesmo sentido — estar com as pessoas. “James Fox disse-me para escolher uma família e seguir cada membro o mais tempo possível. Dizia que era preciso sair de manhã com cada um deles e voltar à noite…” Aqui, o resultado não foi “uma visão optimista do homem”, um dos mandamentos do humanismo do pós-guerra que teve a sua expressão máxima na exposição The Family of Man, organizada por Edward Steichen e inaugurada em 1955, em Nova Iorque, mostra em que Cartier-Bresson participou.

O que este longo ensaio do fotojornalista português mostrou foi, afinal, uma comunidade fechada sobre si e triste, uma visão que não escondeu “a especificidade histórica e social das representações dos indivíduos no mundo” — que foi o que Roland Barthes pediu em Mythologies (1957), quando criticou a linearidade encenada do humanismo de The Family of Man.

 
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